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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O tropeço, ou o arremedo da queda

Mais uma
Mais uma
A tontura
Toma
Conta
Noturna
Como
Tantas.

A cada gole
Uma perda
Na memória.

O que se engole
É o desejo da amnésia
Num lampejo
De vanglória.

Mais outra
Mais outra
A que altura
Se alcança?
A travessura
E a dança
Atravessando
Goela abaixo
Ruela abaixo.

O tropeço
É o prelúdio
Da queda.

O arremedo,
O arremesso
Irremediável
Do ser.

domingo, 11 de novembro de 2012

Ontem fez muito calor, fiquei puto da cara e o dia se resumiu nisso

A história se repete
todo dia
as caras se repetem
seus atos se repetem
suas novidades se repetem

Café com pastel é melhor
rabiscar no papel
o que quer que seja
é infinitamente melhor
do que encarar rostos vazios

O cara da mesa ao lado
me pergunta que tanto escrevo
- Qualquer merda- digo
nas outras mesas
há grupos de amigos
e todos riem e se divertem
eles não entenderiam

- Qualquer merda, cara,
qualquer merda.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Esforço

As pessoas se preocupam
com o fato de eu viver sozinho
mas acontece que sou
um desajustado
depois de um tempo
alguns param de falar comigo
e acham coisas
e outras pessoas
mais importantes

a culpa é toda minha
mas já me acostumei

finjo e digo
que está tudo bem
mas aqui dentro
minhas entranhas
me incomodam bastante
às vezes é insuportável

bobagem
estou bem.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quando as luzes se apagam

estamos envelhecendo
e continuamos os mesmos

neste exato momento
procuro um bom motivo
pra seguir adiante
não encontro nenhum
e o calor é sufocante
e as pessoas também

estamos envelhecendo
e chego à conclusão
que é melhor ficar em casa
sozinho
evite me convidar
pra qualquer coisa
pelo menos
não corro o risco de me perder
de me aborrecer
de me frustrar

o amor
só serviu
pra me foder mais ainda

jogo fora
tudo o que não presta
e o que resta
é um grito no escuro.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Café Imperial

trabalhadores limpam os vidros do prédio
seus movimentos são estudados
ágeis
rápidos
mecânicos

crianças se dirigem ao colégio
com mochilas enormes
correm
mas não por pressa

o velho observa o movimento
sentado ao sol
no banco da praça
seus olhos parecem prever
o ritmo das coisas
numa varredura minuciosa
e então ele me enxerga
ele sabe
vejo o relógio na parede
coloco mais um ponto final

e bebo meu café
agora morno.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Detesto comerciais de margarina

Catando bitucas no cinzeiro
na lixeira
tempos difíceis
a música diz
pra disfarçar e chorar
tem um desgraçado na tv
pedindo voto
desligo
e num piscar de olhos
já é de madrugada
e nada de mais aconteceu
não sei o que espero
e vou dormir, aborrecido,
porque sei que amanhã
será a mesma merda.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Caos II

Este escritor
agora não tem mais nada a dizer
foi obliterado pelo próprio fracasso
e não restaram nem cinzas
é um infeliz, desajustado, fodido,
não o visitam
não ligam

bicho do mato
cravando as unhas na terra
na floresta
marcando território em árvores
com o sangue da testa.